terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Irã e o Programa Nuclear

O Irã (República Islâmica do Irã) e anteriormente conhecido como Pérsia, é um país localizado na Ásia Ocidental. Tem fronteiras a norte com Armênia, Azerbaijão e Turcomenistão e com o Cazaquistão e a Rússia através do Mar Cáspio; a leste com Afeganistão e Paquistão; ao sul com o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã; a oeste com o Iraque; e a noroeste com a Turquia. Composto por uma área de 1.648.195 quilômetros quadrados é a segunda maior nação do Oriente Médio e a 18ª maior do mundo. Com mais de 77 milhões de habitantes, o Irã é o 17º país mais populoso do mundo.

O Irã é uma República Islâmica  que é o nome dado à república que constitui seu corpo instituicional de maneira compatível com os preceitos do islamismo. Na prática, cada um dos países que adota o republicanismo islâmico tem sua maneira própria de aplicar os preceitos islâmicos às instituições republicanas. Entre os países no mundo que adotam o regime incluem as repúblicas islâmicas do Irã, Paquistão, Afeganistão e a Mauritânia.

Economia

A economia iraniana é extremamente dependente da exportação de petróleo, isso significa que enquanto havia restrição a compra de petróleo iraniano, o mundo teve uma alta de preço pois se um dos maiores produtores deste recurso não está no mercado a oferta diminuía. E para o Brasil o petróleo caro tem dois lados:

- por um lado é bom para a Petrobrás lucrar mais e viabilizar projetos caros e;
- por outro lado seria interessante para nós usuários caso o nosso preço de combustíveis também caísse.

Mas devemos olhar para a economia iraniana não como um rival petroleiro e sim como um gigante e potencial cliente dos produtos brasileiros, principalmente alimentos. Com um PIB de quase 1 trilhão de dólares e muita coisa que não conseguem produzir, o Irã pode ser um grande parceiro econômico de qualquer nação produtora de alimentos.

Exportações
66,37 mil milhões
Produtos exportados
Petróleo (80%), produtos químicos e petroquímicos, frutas e nozes, tapetes
Principais parceiros de exportação
República Popular da China 21,4%, Japão 9,1%, Turquia 8,8%, Índia 8,1%, Coreia do Sul 8%, Itália 5,3%
Importações
66,97 mil milhões 
Produtos importados  
Matérias-primas e bens intermediários, bens de capital, alimentos e outros bens de consumo, serviços técnicos
Principais parceiros de importação
Árabes Unidos 30,9%, República Popular da China 17,4%, Coreia do Sul 7,1%, Alemanha 4,8%, Turquia 4,2%
Dívida externa bruta  
9,452 bilhões 

Outro aspecto interessantíssimo da economia iraniana é sua pequena dívida externa que corresponde a cerca de 10% do PIB, só pra ter uma ideia, os EUA possuem dívida externa equivalente a quase 100% do seu PIB e a Noruega mais de 800%.


Situação atual: "Pior negócio de todos os tempos", diz Trump

O acordo nuclear marcou a maior realização estrangeira do ex-presidente americano Barack Obama. Trump, no entanto, chamou o pacto de "desastre" e de "o pior negócio de todos os tempos" e tem trabalhado para desfazer grande parte das agendas de política interna e externa deixadas por Obama.

O atual presidente dos EUA critica o acordo por não incluir o programa de mísseis balísticos do Irã ou o apoio governamental iraniano a grupos como o Hezbollah e a ajuda enviada por eles ao presidente sírio Bashar Assad. Trump também critica o fato de os termos do acordo terem data para expirar. Ele afirma que o pacto "deu à ditadura do Irã uma linha de vida política e econômica".

O primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, um dos inimigos do Irã, também critica a negociação. Buscando garantir a retirada de Trump do pacto, ele apresentou na semana passada o que disse ser provas de que o Irã mentiu sobre suas ambições nucleares nos anos 2000. Porém as informações utilizadas por Netanyahu parecem coincidir com as que a AIEA já informara anteriormente sobre o programa nuclear de Teerã.

Enquanto isso, muitos iranianos dizem que não viram os benefícios econômicos que o presidente Hassan Rohani prometeu com o acordo. O público foi atingido pela espiral inflacionária, que alimentou protestos pelo país em dezembro e janeiro.

O acordo sobre o Programa Nuclear Iraniano aprovado por Obama em 2015

As grandes potências e o Irã concluíram em 14 de julho de 2015 em Viena, após meses de intensas negociações, um acordo final sobre o programa nuclear iraniano, destinado a garantir a natureza estritamente pacífica do programa em troca do levantamento das sanções internacionais contra o Irã. Uma constatação importante é a de que Barack Obama se arriscou bastante encabeçando um acordo que é relativamente arriscado.

Entre os principais "parâmetros" do acordo estão:

'Breakout time'

O objetivo é fixar um ano, no mínimo, e pelo menos dez anos, o "breakout time", o tempo necessário para o Irã produzir material físsil suficiente para a fabricação de uma bomba atômica, e para tornar uma tal tentativa imediatamente detectável. Este período é atualmente de 2 a 3 meses.

Enriquecimento de urânio

O enriquecimento de urânio por meio de centrífugas abre caminho para diferentes utilizações, segundo a taxa de concentração de isótopo U-235: 3,5 a 5% para combustível nuclear, 20% para uso médico e 90% para uma bomba atômica. Esta última etapa, a mais crucial, é também tecnicamente a mais rápida a produzir.
- O número de centrífugas do Irã passará de mais de 19.000 atualmente, incluindo 10.200 em atividade, a 6.104 - uma redução de dois terços -, durante um período de 10 anos.
Apenas 5.060 entre elas serão autorizadas a enriquecer urânio, a um nível que não ultrapassará 3,67% durante 15 anos. Trata-se exclusivamente de centrífugas de primeira geração.
Contudo, o Irã poderá prosseguir com suas atividades de pesquisa com centrífugas mais modernas e começar a fabricação, após oito anos, dos IR-6, dez vezes mais eficazes que as máquinas atuais, e ao IR-8, com desempenho 20 vezes superior.
- Teerã reduzirá a 300 kg, por um período de 15 anos, seu estoque de urânio enriquecido (LEU), atualmente de 10.000 kg.
- Teerã aceitou não construir nenhuma nova instalação de enriquecimento de urânio durante 15 anos.
- O Irã concorda em interromper o enriquecimento de urânio por pelo menos 15 anos na usina de Fordo, enterrada sob as montanhas e, portanto, impossível de destruir por ação militar.
Não haverá material físsil em Fordo por pelo menos 15 anos.
O local permanecerá aberto, mas não enriquecerá urânio.
Cerca de dois terços das centrífugas de Fordo será removido do local.
- Natanz: é a principal instalação de enriquecimento iraniano, com cerca de 17.000 centrífugas IR-1 de primeira geração, mil de IR-2M, e com capacidade de acomodar um total de 50.000.
Teerã concordou em torná-la sua única usina de enriquecimento e manter apenas 5.060 centrífugas, todas IR-1. As centrífugas IR-2M serão retiradas e colocadas sob controle da AIEA.

Controle

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), já presente no Irã, será responsável por controlar regularmente todas as instalações nucleares iranianas, e terá suas prerrogativas reforçadas consideravelmente.
- O campo de competência da AIEA se estenderá a todo programa nuclear iraniano, da extração de urânio à pesquisa-desenvolvimento, passando pela conversão e o enriquecimento de urânio. Os inspetores da AIEA poderão ter acesso às minas de urânio e aos locais onde o Irã produz o "yellowcake" (um concentrado de urânio), durante 25 anos.
- O Irã também concedeu um acesso limitado a suas instalações não-nucleares, principalmente militares, em caso de suspeita de atividade nuclear ilegal, pelos inspetores da AIEA como parte do Protocolo adicional ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) que os países se comprometeram a aplicar e ratificar.

Plutônio

O acordo visa a tornar impossível a produção pelo Irã de plutônio 239, outro componente que pode compor uma bomba nuclear.
- O reator de água pesada em construção em Arak será modificado de modo a ser incapaz de produzir plutônio de qualidade militar. Os dejetos produzidos serão enviados ao exterior durante toda a vida do reator.
- Teerã não poderá construir um novo reator de água pesada durante 15 anos.

Sanções

O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve adotar uma nova resolução para aprovar o acordo e anular todas as resoluções anteriores contra o programa nuclear iraniano.
Algumas medidas serão, no entanto, mantidas como exceção.
- As sanções americanas e europeias relacionadas com o programa nuclear iraniano visando os setores das finanças, energia e transporte, serão levantadas "assim que o Irã implemente" seus compromissos nucleares, atestado por um relatório da AIEA, o que não deve acontecer antes de 2016.
- As sanções da ONU sobre as armas: vão ser mantidas por cinco anos, mas exceções poderão ser concedidas pelo Conselho de Segurança. Todo comércio de mísseis balísticos com capacidade de transportar ogivas nucleares permanece banido por um período indeterminado.

Considerações finais

O fim do embargo recolocava o Irã na economia mundial em uma época de crise econômica global, a atual gestão dos EUA prefere o distanciamento do Irã e o isolamento econômico do mesmo.

Jonathan Kreutzfeld

Fonte:






                       

Iêmen: ruim para homens, um inferno para mulheres

Após 33 anos de ditadura, em meio a Primavera Árabe, Ali Abdullah Saleh foi morto em 2011 acusado de traição pelo próprio povo. Na época, ele passou o comando do país para o seu então vice, Abd-Rabbu Mansour Hadi. Esta reviravolta deveria trazer estabilidade para o país, no entanto fracassou violentamente.

Iêmen: Ruim para os homens, um verdadeiro inferno para as mulheres.

Um detalhe muito importante sobre o Iêmen, é que entre sunitas e xiitas, o país é considerado um dos mais radicais do mundo, com registros de mortes violentas aos cristãos e atrocidades cometidas contra as mulheres. Condenações por apedrejamento para as mulheres, retirada de clitóris para findar o prazer das mesmas e queimadas vivas, são infelizmente violências mais comuns do que se imagina neste país.

Os rebeldes xiitas houthis entraram em Sanaa em setembro de 2014 e assumiram seu controle meses depois. Hadi enfrentou uma variedade de problemas, incluindo ataques da Al-Qaeda, um movimento separatista no sul, a resistência de muitos militares que continuaram leais a Saleh, assim como corrupção, desemprego e insegurança alimentar.

O movimento houthi, que segue uma corrente do islã xiita chamada zaidismo e havia travado uma série de batalhas contra Saleh na década anterior, tirou proveito da fraqueza do novo presidente e assumiu o controle da província de Saada, no nordeste do país.

Desiludidos com a transição, muitos iemenitas – incluindo os sunitas – apoiaram os houthis e, em setembro de 2014, eles entraram na capital, Sanaa, montando acampamentos nas ruas e bloqueando as vias.

Em janeiro de 2015, eles cercaram o palácio presidencial e colocaram o presidente Hadi e seu gabinete em prisão domiciliar. O presidente conseguiu fugir para a cidade de Áden no mês seguinte.

O conflito armado se transformou em uma guerra de grande escala no Iêmen em 2015, aumentando as já enormes necessidades médicas e humanitárias e restringindo gravemente o acesso a cuidados de saúde.

Os Houthis continuaram a avançar em 2015, tomando o palácio presidencial em Sanaa, em janeiro. O presidente Hadi fugiu para Aden e uma coalizão liderada pela Arábia Saudita que apoia seu governo deu início a ataques aéreos para recuperar o território perdido, inclusive o porto de Aden. Enquanto isso, a guerra fortaleceu a presença da Al Qaeda e do Estado Islâmico no país. Até o fim do ano, a ONU estimava que 2.800 pessoas tenham sido mortas e cerca de 2,5 milhões deslocadas internamente. O sistema de saúde foi dizimado: os profissionais médicos fugiram do país, instalações foram destruídas e materiais médicos, cortados.

A guerra civil no Iêmen, o país mais pobre do mundo árabe, deixa 22 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, segundo os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), que considera essa a maior crise humanitária global em curso atualmente.

Só em 2018, 85 mil pessoas já foram forçadas a deixar suas casas por conta do conflito iemenita, e o total de mortos ultrapassa 10 mil desde 2015.

Antagonismo regional

Sunitas com apoio saudita x Xiitas com apoio iraniano.
  

Em meio à guerra, o país sofre com bloqueios comerciais impostos pelos sunitas, que impedem que ajuda humanitária e itens básicos, como comida, gás de cozinha e medicamentos, cheguem a 70% da população iemenita.

Os anos de conflito não só provocaram uma escassez aguda de alimentos como destruíram o sistema de saúde do país, dificultando o combate a uma grave epidemia de cólera. Em dezembro, o número de casos suspeitos de cólera alcançou 1 milhão.


Por que essa guerra importa para o resto do mundo?

O Iêmen é estrategicamente importante, porque está no estreito de Bab-el-Mandeb, que faz ligação com a África e é rota de navios petroleiros. Além disso, muitas potências lucram indiretamente com a guerra iemenita: a coalizão saudita que bombardeia o Iêmen compra armas de países como Estados Unidos, Reino Unido e França. No entanto, é possível garantir que o conflito também tem muitas armas sauditas e iranianas. Ou seja, quase todos os envolvidos ganham dinheiro e quem se ferra é o povo iemenita.

Só as empresas britânicas teriam lucrado £6 bilhões ( R$27 bilhões, aproximadamente) com venda de armas à Árabia Saudita desde o início da guerra no Iêmen, segundo pesquisa da ONG War Child UK.

A coalizão alegou querer parar o contrabando de armas para os rebeldes do Irã, mas a ONU disse que as restrições poderiam desencadear "a maior crise de fome que o mundo já viu em décadas".

A crise humanitária

A população tem suportado o caos da guerra e sido constantemente vítima do que o conselho de direitos humanos da ONU chama de "incessantes violações do Direito internacional".

Os ataques aéreos da coalizão saudita foram as principais causas da morte de civis. A destruição da infraestrutura do país e as restrições de importação de comida, de medicamentos e de combustível causaram o que a ONU diz ser uma situação catastrófica.

Mais de 20 milhões de pessoas, incluindo 11 milhões de crianças, precisam de ajuda humanitária imediata. Há 7 milhões de pessoas dependentes de ajuda para comer e 400 mil crianças sofrendo de desnutrição.

Ao menos 14,8 milhões estão sem cuidados básicos de saúde, e apenas 45% dos 3,5 mil postos de saúde estão funcionando e lutando para conter a maior epidemia de cólera do mundo, que até o final do ano passado havia resultado em 2.196 mortes.

Jonathan Kreutzfeld

Fonte:






terça-feira, 14 de agosto de 2018

Feminicídio no Brasil - Dados

O tema não é novidade e o fato se repete todos os dias em diversos lugares do Brasil. Mas em 2018, duas mortes brutais, amplamente divulgadas nos noticiários chamaram a atenção para esse assunto tão cotidiano, o Feminicídio. No início do ano, a morte da vereadora Mariele, do Rio do Janeiro e mais recentemente a da advogada Tatiana, em Guarapuava.

Mariele era defensora das causas femininas e dos direitos humanos, e sua morte, argumenta a polícia, está possivelmente ligada à suas crenças e atuação.

Tatiana vivia um relacionamento abusivo, chegou a relatar violência domestica, mas não conseguiu se defender das agressões do marido que é apontado como possível causador da morte da advogada – ou jogando-a da sacada do apartamento onde moravam ou estimulando que ela pulasse para escapar das agressões.

Dois atos distintos, mas duas histórias que refletem a situação vivida por milhares de mulheres, mortas em função do seu gênero, feminino.

O feminicídio não se trata apenas de um termo politicamente correto inventado por feministas e usado só informalmente. A palavra apareceu no século XIX, mas seu significado atual ganhou força nos anos 70, incensado por autoras ativistas como a sul-africana Diana Russel. Com o tempo, diferentes países incorporaram o termo a suas legislações, como México, Colômbia e Guatemala.

Dados sobre o Feminicídio no Brasil

Dados de 2017 apontam que no referido ano foram cometidos 4.473 homicídios dolosos de mulheres, um aumento de 6,5% em relação a 2016. Isso significa que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil. Falta de padronização e de registros atrapalham monitoramento de feminicídios no país.

De acordo com relatório recente das Nações Unidas, a taxa de feminicídios no Brasil é quinta maior do mundo. Diretrizes nacionais sobre feminicídio querem acabar com violência de gênero.

O objetivo do documento é incluir a perspectiva de gênero nos processos de investigação e julgamento de crimes de feminicídio, aprimorando as condutas dos diversos profissionais envolvidos.

Sentimento de posse sobre a mulher, controle sobre seu corpo, desejo e autonomia e limitação de sua emancipação profissional, econômica, social ou intelectual são citados nas Diretrizes como motivações de gênero para o crime de feminicídio.

O documento contém recomendações para a revisão dos procedimentos de perícia, polícia, saúde e justiça que lidam com ocorrências de feminicídio. O objetivo é adequar a resposta de indivíduos e instituições aos assassinatos de mulheres, a fim de assegurar os direitos humanos das vítimas à justiça, à verdade e à memória.

Em 2015, o Mapa da Violência sobre homicídios entre o público feminino revelou que, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.


Na mesma década, foi registrado um aumento de 190,9% na vitimização de negras, índice que resulta da relação entre as taxas de mortalidade branca e negra. Para o mesmo período, a quantidade anual de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747 em 2003 para 1.576 em 2013. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.


Em 2015 “nasce” a Lei do Feminicídio

A Lei do Feminicídio (13.104/2015) alterou o Código Penal brasileiro ao tipificar esse crime – homicídio cometido com requintes de crueldade contra mulheres por motivações de gênero. O lançamento das Diretrizes quer Incluir a perspectiva de gênero como hipótese inicial das investigações dos assassinatos.

Segundo a secretária nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Regina Miki, as diretrizes proporcionarão a capacitação de policiais e peritos para que tenham uma visão diferenciada. “Terá aquele olhar de que aquela mulher morreu pela condição de ser mulher”, afirmou.

Para a secretária especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, Eleonora Menicucci, as diretrizes provocarão mudanças nas condenações e prisões dos agressores de mulheres. “A Lei do Feminicídio representa uma mudança cultural numa sociedade patriarcal”, destacou.

Menicucci também afirmou que o governo promoverá uma sensibilização a nível nacional para que todos os estados apliquem as Diretrizes.

Motivações de gênero e condutas adequadas

Na nova legislação, a violência doméstica e familiar e o menosprezo ou discriminação à condição de mulher são descritos como elementos de violência de gênero e integram o crime de feminicídio.

As Diretrizes Nacionais detalham as motivações baseadas em gênero que podem estar por trás de episódios violentos: sentimento de posse sobre a mulher; controle sobre seu corpo, desejo e autonomia; limitação da sua emancipação profissional, econômica, social ou intelectual; tratamento da mulher como objeto sexual; e manifestações de desprezo e ódio pela mulher e por sua condição de gênero.

O documento também apresenta recomendações específicas para cada fase da investigação policial e do processo judicial e seus respectivos encarregados.

As etapas são dirigidas por diversos profissionais, como bombeiros, socorristas e demais profissionais de saúde, guardas municipais, policiais civis, militares e federais, peritos, médicos legistas, funcionários cartoriais, promotores de justiça, defensores públicos, magistrados, jornalistas, entre outros.

O Brasil é protagonista na discussão

As Diretrizes Nacionais são baseadas no Modelo de Protocolo Latino-Americano de Investigação de Mortes Violentas de Mulheres por Razões de Gênero. O Brasil foi escolhido como país-piloto para o processo de adaptação do documento internacional e de sua incorporação às normativas e diretrizes nacionais.

Os critérios de seleção do país incluíram a prevalência e relevância das mortes violentas de mulheres por razões de gênero no território nacional, a capacidade de implementação das Diretrizes no sistema de justiça criminal, a existência prévia de relações interinstitucionais entre os parceiros, a capacidade técnica dos escritórios da ONU Mulheres e do ACNUDH para desenvolver o projeto no Brasil e a presença de representação diplomática da Áustria, cujo governo apoia a iniciativa.

A elaboração das Diretrizes mobilizou não apenas os organismos da ONU já citados, mas também a campanha do secretário-geral da ONU “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”.

O governo do Brasil participou da concepção do documento por meio da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e do Ministério da Justiça.

Jonathan Kreutzfeld

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Fonte:

DIRETRIZES ONU MULHER: 




quarta-feira, 18 de julho de 2018

Opinião: A Geografia na BNCC do Ensino Médio

Introdução

Na educação básica brasileira, os principais documentos norteadores do que hoje é colocado em prática nas escolas, em geral foram criados por leis da década de 1990.

No entanto, os documentos nunca especificavam quais os conteúdos obrigatórios para cada nível de ensino.

Aí por duas décadas, quem determinou o que deveria ser ensinado em cada componente curricular e a profundidade do mesmo eram determinados das seguintes formas:

- SISTEMA DE ENSINO (MATERIAL DIDÁTICO);
- ESCOLA;
- PROFESSOR.

Basicamente, cada escola/professor/material fazia o que considerava mais importante em cada série de ensino e sendo assim, as mudanças de escola poderiam ser trágicas. O aluno poderia rever todo o conteúdo da 1ª série novamente numa nova escola, estudando na 2ª série.

Aí nos anos 2010, de forma mais contundente, reuniões e “consultas populares” passaram a definir o que hoje chamamos de BNCC do Ensino Médio. Esta vende a ideia de uma revolução na educação e que todos os estudantes vão ter acesso aos mesmos conteúdos em qualquer localização do país e que ao mesmo tempo vão poder compor um itinerário por área.

A Geografia na BNCC do Ensino Médio

Eu não vou me ater aos detalhes da base no seu contexto geral ou de outros níveis e área. Vou focar apenas na disciplina de Geografia no Ensino Médio.

Mas professor, não existe mais disciplinas na BNCC!

ERRADO! Seja lá qual for o nome dado (componente, disciplina, gaveta...) a Geografia antes de qualquer normativa, assim como as demais, é uma ciência. E a Geografia como ciência, pertence à área das Ciências Humanas que se entrelaçam sim, mas continuam sendo ciências diferentes em todo seu contexto de formação acadêmica.

O texto de Competências e Habilidades criado para compor a BNCC ao meu ver nada mais é do que um amontoado de frases abrangentes e com ampla possibilidade de interpretação. Para compor o que já aparecia em Planos de Ensino e materiais de Sistemas de Ensino competentes e que já buscavam contemplar plenamente os conteúdos previstos por cada CIÊNCIA que compõe a grade curricular da Educação Básica brasileira.

O governo vende a ideia de que todos terão os mesmo direitos de aprendizagem a partir de uma futura homologação da BNCC. Isso é uma grande mentira! As únicas coisas que garantem direitos de aprendizagem em quantidade e qualidade são COMPETÊNCIA e COMPROMETIMENTO do profissional que entra na sala de aula. Planos e Bases, não fixam nem garantem que algum conteúdo seja contemplado, muito menos padronizado. As desigualdades na qualidade da educação nacional vão continuar, (e obviamente o governo sabe, mas insiste vender outra ideia) o que de fato deve melhorar são as referências. Sendo que referência é uma coisa que todos os bons profissionais deveriam ter a partir do momento em que se formam na universidade. Mas isso é outro assunto que poderia ser amplamente discutido em outro texto.

Conforme já dito anteriormente, os conteúdos continuam existindo plenamente e estão entremeados nas competências e habilidades que analisaremos abaixo.

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS HUMANAS E
SOCIAIS APLICADAS PARA O ENSINO MÉDIO: COMENTÁRIOS SOBRE O CONTEXTO GEOGRÁFICO

1. Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir de procedimentos epistemológicos e científicos, de modo a compreender e posicionar-se criticamente com relação a esses processos e às possíveis relações entre eles.

Comentário: Aqui temos todos os conteúdos hoje contemplados em assuntos de Geografia Regional do Brasil e do Mundo onde abordamos processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais. E obviamente há a necessidade de relacionar com assuntos atuais ou enfatizar o que mais se destaca em cada situação.


Comentário: Sobre as habilidades da Competência 1 temos o conteúdo que já foi identificado, no contexto da Cartografia tanto da parte conceitual como na análise de escala. Da evolução tecnológica/política/econômica/social que os territórios estão submetidos.

2. Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a compreensão dos processos sociais, políticos, econômicos e culturais geradores de conflito e negociação, desigualdade e igualdade, exclusão e inclusão e de situações que envolvam o exercício arbitrário do poder.

Comentário: Bastante voltada para a formação histórica do território, vai ser contemplada na Geografia com os conteúdos de População/Demografia bem como os tradicionais temas de Geopolítica e Geoeconomia que de certa forma estão contemplados parcialmente na Competência 1.


Comentário: Sobre as habilidades da Competência 2 temos então o conteúdo de população e tudo que cerca o tema, além de Terra no Espaço / Movimentos da terra.

3. Contextualizar, analisar e avaliar criticamente as relações das sociedades com a natureza e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de soluções que respeitem e promovam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global.

Comentário: Esta competência visa abordar conteúdos sobre sustentabilidade no contexto da descrição de Biomas, Atmosfera, Geologia, Hidrografia.


Comentário: Bastante abrangente, envolve Organizações internacionais, Espaço Urbano (Industrial/Serviços) e Rural (Agropecuária/Extrativismo) bem como as atividades econômicas desenvolvidas em cada ambiente bem como seus fluxos de problemas socioambientais.

4. Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes
territórios, contextos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades.


Comentário: A competência 4 em princípio se assemelha bastante as anteriores, mas se diferencia no enfoque aos Direitos Humanos, Desigualdade Social, que já costumam ser abordados no contexto das Organizações Internacionais e ou Espaço Urbano ou Demografia...


5. Reconhecer e combater as diversas formas de desigualdade e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos.


6. Participar, pessoal e coletivamente, do debate público de forma consciente e qualificada, respeitando diferentes posições, com vistas a possibilitar escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  

Considerações Finais

A Base sozinha não muda nem engessa o conteúdo que atualmente é abordado na educação nacional. Vendem uma ideia de inovação e itinerários, mas isso meramente representa uma necessidade de tentar adequar às necessidades dos estados em cumprir leis sobre acesso a educação e oferecer conteúdos de acordo com a existência maior de algum nicho de professores do que outro.

Creio que a escola privada vai continuar muito parecida com o que já é, seja ela de qual vertente for e a pública da mesma forma para pior. Considerando que a falta de profissionais é responsável por grande parte da reestruturação do Ensino Médio. Quando não tenho profissionais adequados, ofereço apenas o que tenho disponível.

É uma opinião bastante pessimista? Talvez sim, na verdade penso que muitos profissionais tem feito a diferença na educação e que por outro lado os governos em todas as esferas têm buscado muito mais a melhoria de indicadores do que a qualidade da educação de fato.

Jonathan Kreutzfeld

Fonte: